26/01/2018 ANÁLISE DE MERCADO

“Dependência da Rússia pelo produto brasileiro é significativa”, diz De Zen

País tem “tradição” de impor embargos temporários às carnes nacionais

A Rússia é um mercado extremamente importante e estratégico, que mantém, há anos, relações bilaterais com o Brasil. No caso da pecuária nacional, o país é um importante demandante das carnes suína, bovina e de frango. Nos últimos anos, a Rússia se consolidou como a maior compradora de carne suína do Brasil e atualmente é a quinta maior de bovina – chegou a ser a maior compradora desta proteína em 2014. Somente em 2017 (até outubro), a Rússia foi destino de quase 40% da carne suína exportada pelo Brasil e 11% da de boi.

De acordo com análise do professor da Escola Superior de Agricultura "Luiz de Queiroz" da Universidade de São Paulo (Esalq/USP, Piracicaba/SP) e pesquisador do Cepea, Sergio De Zen (publicada em 6 de dezembro do ano passado junto aos analistas de Mercados de Pecuária do Cepea, Juliana Ferraz, Caio Augusto Monteiro e Marcos Iguma, com colaboração da jornalista Alessandra da Paz), a dependência da Rússia pelo produto brasileiro é significativa e o país não teria muita facilidade de encontrar fornecedores num curtíssimo prazo.

No caso da carne suína, ainda há a opção de alguns países europeus que vêm registrando incremento na produção – que, por sua vez, dependeriam de grãos importados do Brasil. No entanto, para esses países europeus aumentarem a produção e ocupar o lugar do Brasil na carne suína, poderia haver também problemas ambientais, já vistos no passado na Holanda e na Alemanha – nestes países, a concentração excessiva de rebanhos suínos levou a contaminação do lençol freático, resultando em problemas de saúde à população. No Brasil, a ocorrência desse tipo de evento é praticamente impossível no Centro-Oeste, por características de clima, ambiente e solo.

Sergio-De-Zen

“A Rússia também tem mostrado forte intenção de aumentar a produção interna de proteínas, dentre elas a carne suína. Para isso, precisaria criar uma estrutura de produção rentável, tendo em vista os elevados custos de produção com importação de grãos e estruturas para enfrentar invernos rigorosos”, afirma De Zen (Foto: reprodução)

Diante disso, a notícia do embargo da Rússia sobre as carnes brasileiras de suíno e de boi preocupa o setor nacional; porém, nem tanto. “O fato de a notícia não deixar o setor alarmado também está relacionado à ‘tradição’ de o país russo impor embargos temporários às carnes nacionais”, explica.

Os embargos russos mais recentes foram impostos temporariamente, por motivos diversos e a um, a vários ou a todos os frigoríficos nacionais. Desta vez, o serviço veterinário e fitossanitário da Rússia, Rosselkhoznadzor anunciou, no dia 20 de novembro, a suspensão das compras totais das carnes suína e bovina, tendo como alegação a presença de ractopamina em amostras da carne suína enviadas àquele país.

A substância – que promove o desenvolvimento de massa muscular do animal, que é permitida no Brasil e em outros destinos da carne brasileira e é utilizada na produção de suíno – ainda é proibida na Rússia. Vale ressaltar que a substância é legalizada em países considerados extremamente exigentes no quesito sanitário, tais como Estados Unidos e Canadá. Além disso, não há comprovação de possíveis malefícios do consumo da carne com essa substância. Alguns analistas especulam que o embargo seria uma certa pressão russa para liberar a entrada de trigo e de outros produtos daquele país no Brasil.

FUTURO. Colaboradores do Cepea são unânimes: Todos acreditam que o embargo será suspenso em pouco tempo. Há, ainda, um certo otimismo do setor nacional quanto às futuras vendas da carne àquele país. Em 2018, a Rússia sediará a Copa do Mundo, evento que pode elevar ainda mais a demanda por carne.

Fonte: Cepea, adaptado pela equipe feed&food.